7 de fev de 2011

Porque adoro albergues

Não preciso dizer que amo viajar. Conhecer lugares e culturas tornou-se parte fundamental na minha vida. Muitas pessoas não entendem como tenho dinheiro para visitar pelo menos um novo países a cada ano. Alguns amigos desinformados pensam que ganho muito bem, o que está longe de ser verdade. O que pouca gente sabe é que, para viajar, não é preciso ser rico, vender um apartamento ou gastar uma verdadeira fortuna.

Sempre conto às pessoas as vantagens de se abrir mão de certos confortos – que, para mim, estão mais para o lado da categoria “luxos” - durante uma viagem. Bem mais interessante que pegar um táxi ao chegar em um aeroporto é ir para a estação de trem ou ônibus, pedir informação se arriscando na língua local, conversar com o motorista, pedir ajuda às pessoas do lugar, ver a cidade e observar como os locais transitam onde vivem. Além de ser bem mais divertido, esse é o primeiro contato real com o  novo lugar. Pegar um taxi e ir direto para o hotel é, na minha opinião.... sem graça. E muito mais caro, principalmente pra quem viaja sozinho ou em dupla.

Mas minha forma preferida de economizar em viagens é me hospedar em albergues, ou hostels, como são conhecidos internacionalmente, e backpackers (mochileiros) aqui na Austrália. ADORO albergues! Muitos amigos torcem o nariz quando sugiro que se hospedem em um deles. Não sabem que, além de gastar menos, terão muito mais diversão!

Os albergues geralmente oferecem camas em dormitórios, que são divididos por 4, 8, 10 e até 20 pessoas! Os banheiros são coletivos e há áreas comuns a todos os hóspedes, como cozinha (que pode ser usada para fazer e guardar sua própria comida) e áreas de lazer, como sala de TV, piscina, churrasqueira, mesa de sinuca, bar. Muitos oferecem também quartos privativos com banheiros, cobrando um pouco mais por isso.

É bem verdade que a maioria dos hóspedes desses lugares são jovens mochileiros, que não se importam muito com conforto – ou melhor, com luxo - e têm menos a gastar. Mas ao mesmo tempo é comum dividirmos o quarto com cinqüentões ou sessentões e conhecermos nas áreas coletivas casais com filhos e pessoas que ficam em albergues porque gostam, não porque é mais barato.

Albergue em Coral Bay - não deixa a desejar!

Já fiquei em muitos albergues e grande parte deles não ficam atrás dos hotéis convencionais nos quesitos organização e limpeza, por exemplo. Alguns, confesso, deixaram a desejar e se mostraram verdadeiras espeluncas. No entanto, praticamente todos têm uma característica em comum, a que mais me seduz: estimulam a socialização entre as pessoas.  Têm grande importância nas nossas viagens as pessoas que conhecemos durante a estada nesses lugares. Viajantes do mundo inteiro, pessoas interessadas e interessantes que, na maioria das vezes, tem muito em comum com a gente, por também amarem viajar. No contato com esse pessoal, conseguimos dicas preciosas sobre lugares a visitar, barganhas, eventos na cidade. Verdadeiros grupos são formados nos albergues para explorar a cidade, dividir a gasolina do carro na viagem ao próximo destino, tomar uma cerveja no fim do dia. Um australiano que conheci viajando sozinho pelo México uma vez me disse que, ficando em albergues, ele estava só, mas nunca solitário. Concordo totalmente. É o que senti nas vezes em que me aventurei sozinha pelo mundo.

Por causa das chuvas e enchentes no leste da Austrália – plano de destino a princípio - resolvemos passar alguns dias no oeste do país, o único lugar em que o sol ainda insistia em aparecer nessa grande ilha. Voamos de Melbourne pra Perth. Foi aí que nossa viagem realmente pareceu começar! Achamos um albergue bem barato no centro da cidade, o The Globe Backpackers: 19 dólares australianos por dia em um quarto feminino com 20 camas e banheiro coletivo. À primeira vista, pareceu bom e nos atraímos pelo preço, já que os albergues onde havíamos nos hospedados no país até então custavam em média AUD 28,00 a diária. Mas depois que nos instalamos, vimos que o lugar era sujo, a cozinha nojenta e a noite tumultuada pelos hóspedes bêbados que permaneciam na área comum até a madrugada.

Família reunida
Porém, foi nesse ambiente "inóspito" que conhecemos o que se tornou nossa “família” no oeste do país: dois biólogos holandeses, Joop e Mo, que vieram para a Austrália pesquisar o comportamento de um único pássaro durante 4 meses e esperavam para dirigir até Broome, a cerca de 2,300 Km ao norte, onde realizariam seu trabalho. O outro membro da família chegou logo depois: Anu, um indiano incrível que, após um câncer na coluna quando tinha apenas 28 anos, se viu obrigado a usar uma cadeira de rodas pra se locomover pelo resto da vida. Na água, Anu encontrou novamente a liberdade de movimento e estava em Perth se preparando para integrar a equipe de natação indiana nos jogos paraolímpicos de Londres, em 2012. Conversamos, rimos, bebemos, passeamos, almoçamos sanduíche no parque, fotografamos, aprendemos sobre pássaros e trocamos muitas experiências.

A balbúrdia no The Globe no fim do dia já não incomodava mais. Após quatro noites hospedados no albergue, já nos sentíamos em casa. A sujeira a gente deixava longe, na cozinha. Jamais trocaria a diversão sem fim e as pessoas incríveis que tenho conhecido pelos caminhos por um quarto branco, confortável e entediante de hotel.  

Anu, nosso atleta olímpico


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